Não é Depressão, é Menopausa

Irritabilidade sem razão aparente. Cansaço que não passa. Falta de vontade para tudo. Muitas mulheres na casa dos 45-55 anos passam por isto e concluem, sozinhas, que “deve ser depressão”. Às vezes é. Mas, muitas vezes, é menopausa — e a confusão entre as duas é tão comum que até tem nome na literatura médica: sobreposição de sintomas.

Neste artigo explicamos porque é tão fácil confundir os sintomas da perimenopausa e da menopausa com um quadro depressivo, o que dizem os números sobre esta realidade em Portugal, e porque é que apenas uma avaliação médica pode realmente distinguir as duas situações.

Porque os sintomas se confundem

O estrogénio não regula apenas o ciclo menstrual — participa também na produção e regulação da serotonina e da dopamina, os neurotransmissores mais associados ao humor, à motivação e ao prazer. Quando os níveis de estrogénio oscilam de forma errática, como acontece na perimenopausa, é normal que surjam sintomas emocionais que se sobrepõem quase ponto por ponto aos critérios usados para diagnosticar depressão:

      Irritabilidade e mudanças de humor frequentes

      Cansaço persistente e falta de energia

      Perda de motivação ou interesse em atividades habituais

      Dificuldade de concentração e “névoa mental”

      Ansiedade e sensação de tensão constante

      Alterações do sono, que por si só agravam todos os sintomas anteriores

A somar a isto, os sintomas físicos da menopausa — afrontamentos, suores noturnos, insónia — interrompem o sono de forma repetida, o que por si só é suficiente para desencadear ou agravar sintomas de humor em qualquer pessoa, independentemente da causa hormonal.

O que dizem os números

45% a 68%  das mulheres apresentam sintomas depressivos durante a perimenopausa, segundo as recomendações de boas práticas de 2026 da FIGO (International Federation of Gynecology and Obstetrics) sobre saúde mental na menopausa.

29%  das mulheres portuguesas em perimenopausa ou plena menopausa classificam o seu estado psicológico como pouco ou nada saudável, segundo o estudo “Menopausa: Como é vivida pelas mulheres em Portugal”, promovido pela Wells, com coordenação científica do Dr. Joaquim Neves, ginecologista e obstetra (inquérito a 1.000 mulheres).

38%  das mulheres portuguesas que percebem estar a aproximar-se da menopausa não procuram um especialista, ou demoram pelo menos um ano a fazê-lo, segundo o mesmo estudo.

57%  das mulheres portuguesas entre os 45 e os 60 anos afirmam que os sintomas da menopausa interferem com a sua vida diária, segundo um inquérito da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG).

Estes números mostram um padrão preocupante: a saúde mental é uma das áreas mais afetadas nesta fase da vida, mas também uma das que menos leva as mulheres a procurar ajuda médica — muitas vezes por assumirem, incorretamente, que “é normal sentir-se assim” ou que “não há nada a fazer”.

Uma nota importante: as duas coisas podem ser verdade

É essencial não trivializar nenhuma das duas hipóteses. Reconhecer que muitos sintomas da menopausa imitam os da depressão não significa que a depressão “não seja real” nesta fase da vida — pelo contrário, mulheres com historial depressivo têm, segundo vários estudos, maior risco de recaída durante a transição menopáusica, e uma pequena parte das mulheres apresenta, pela primeira vez na vida, um quadro depressivo major precisamente nesta altura.

A mensagem central é esta: só uma avaliação clínica adequada — feita por um médico de família, ginecologista ou psiquiatra — permite perceber se os sintomas se devem sobretudo às alterações hormonais, a um quadro depressivo independente, ou a uma combinação das duas coisas. E cada uma dessas situações tem uma abordagem de tratamento diferente.

E as perdas de urina, o que têm a ver com isto?

As perdas de urina são outro sintoma muito comum nesta fase da vida — e, tal como os sintomas de humor, também raramente são discutidas com naturalidade. Segundo o estudo epidemiológico de Correia et al., publicado no International Urogynecology Journal, a prevalência de incontinência urinária nas mulheres portuguesas com mais de 40 anos é de 21,4%, um valor que sobe com a idade e com a proximidade da menopausa, à medida que a queda de estrogénio enfraquece os tecidos da bexiga e do pavimento pélvico.

Não é coincidência que humor, sono e controlo da bexiga se alterem todos ao mesmo tempo — são sintomas diferentes com uma origem hormonal comum. E, tal como os sintomas emocionais, também as perdas de urina são frequentemente vividas em silêncio, por vergonha ou por se assumir, erradamente, que “é assim que vai ser agora”.

Cuidar do corpo enquanto se trata da cabeça

Enquanto se procura o acompanhamento médico certo — seja para os sintomas emocionais, para as perdas de urina, ou para ambos — há um alívio imediato que está ao alcance: sentir-se confortável e protegida no dia a dia, sem ter mais uma preocupação a juntar às restantes.

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Nota: Este artigo tem caráter meramente informativo e não substitui uma avaliação médica ou psicológica/psiquiátrica. Se sente que os sintomas descritos afetam significativamente a sua vida, fale com o seu médico de família, ginecologista ou psiquiatra. Se em algum momento tiver pensamentos de fazer mal a si própria, procure ajuda imediata através do SNS 24 (808 24 24 24) ou dirija-se a um serviço de urgência.

Fontes

FIGO (International Federation of Gynecology and Obstetrics) — Recomendações de boas práticas sobre saúde mental na menopausa, 2026

Estudo “Menopausa: Como é vivida pelas mulheres em Portugal” — Wells / Return On Ideas, coordenação científica de Dr. Joaquim Neves (ginecologista/obstetra), inquérito a 1.000 mulheres

Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG) — inquérito a mulheres portuguesas entre os 45 e os 60 anos

Correia S, Dinis P, Rolo F, Lunet N. “Prevalence, treatment and known risk factors of urinary incontinence and overactive bladder in the non-institutionalized Portuguese population.” International Urogynecology Journal, 2009;20(12):1481-9

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