Ninguém avisa. Tem o bebé nos braços, as noites em branco, o corpo ainda a recuperar — e, de repente, uma tosse, uma gargalhada ou uma corrida para a casa de banho acabam em perdas de urina. Muitas mães calam-se, convencidas de que é um “preço a pagar” pela maternidade, ou de que são as únicas a quem isto acontece.
Não são. Neste artigo reunimos o que dizem os estudos feitos em Portugal sobre incontinência urinária no pós-parto, explicamos porque acontece e o que pode ajudar a recuperar — e como ter conforto e segurança no dia a dia enquanto essa recuperação decorre.
O que dizem os estudos portugueses
46,6% das mulheres com parto nos últimos 12 meses referiram perdas de urina (324 em 696), num estudo de doutoramento da Universidade Católica Portuguesa baseado num questionário online a mulheres portuguesas.
51,9% das grávidas já tinham perdas de urina no terceiro trimestre, num estudo observacional com 268 puérperas do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, publicado na Acta Médica Portuguesa.
82 em 237 mulheres desse mesmo estudo (cerca de um terço) mantinham perdas de urina três meses após o parto — mais frequentemente depois de parto vaginal do que de cesariana. Em cerca de 68% dos casos, os sintomas já tinham começado durante a gravidez.
63,6% das mulheres que perdiam urina várias vezes ao dia consideraram que isso tinha um grande impacto na sua qualidade de vida. Mesmo com perdas semanais, 18,8% disseram o mesmo (estudo da Universidade Católica Portuguesa).
Os dois estudos usam métodos diferentes — um questionário online, no primeiro caso, e um seguimento hospitalar aos três meses, no segundo — pelo que os números não são diretamente comparáveis. Mas contam a mesma história: a incontinência urinária no pós-parto é frequente, e não é um problema só de quem teve um parto difícil.

Porque acontece
Durante a gravidez, o peso do útero e as alterações hormonais sobrecarregam o pavimento pélvico, o conjunto de músculos que sustenta a bexiga e ajuda a controlar a urina. No parto, estes músculos e os tecidos à volta são esticados ao máximo, sobretudo no parto vaginal. A Escola de Enfermagem da Universidade Católica Portuguesa (Porto) destaca as disfunções do pavimento pélvico entre as consequências mais frequentes do pós-parto, com impacto na continência, na função sexual e no bem-estar geral.
O estudo da Universidade Católica identificou ainda alguns fatores associados a maior risco de perdas no pós-parto:
• Perdas de urina antes da gravidez ou durante a gravidez
• O tipo de parto
• Idade superior a 34 anos
O estudo do Tâmega e Sousa aponta também a multiparidade (ter tido mais do que um parto) como possível fator de risco. Ter um destes fatores não significa que vá acontecer-lhe — e não ter nenhum não a protege —, mas ajuda a perceber porque a incontinência pós-parto é tão comum.

Passa sozinha?
Em muitas mulheres, as perdas diminuem nas semanas e meses seguintes ao parto, e o próprio estudo do Tâmega e Sousa conclui que a prevalência baixa do período da gravidez para o pós-parto. Mas “muitas” não é “todas”: o estudo da Universidade Católica conclui que esta condição é um problema de saúde que deve ser abordado na prática de cuidados, e não ignorado à espera de que desapareça.
Se as perdas persistirem, se piorarem, ou se simplesmente a incomodarem, fale com o seu médico de família, obstetra ou enfermeiro especialista. Não precisa de esperar por uma data certa nem de ter “perdas suficientes” para justificar a conversa.
O que pode ajudar a recuperar
• Exercícios do pavimento pélvico — o treino destes músculos é uma das abordagens mais usadas na incontinência de esforço, mas deve ser feito com orientação profissional para garantir que a técnica está correta
• Fisioterapia pélvica — a CUF refere-a como uma solução eficaz para tratar e prevenir disfunções do pavimento pélvico, incluindo no pré e pós-parto, para ajudar na recuperação e prevenir problemas como a incontinência e a dor pélvica
• Avaliação médica — para perceber o tipo de incontinência e adaptar o tratamento ao seu caso
• Paciência com o corpo — a recuperação pós-parto é um processo, e pedir ajuda cedo costuma facilitá-lo

O lado que raramente se discute
A incontinência urinária não é só um problema físico. O estudo da Universidade Católica conclui que tem um impacto significativo na qualidade de vida das mulheres, em particular na relação com o companheiro, na vida sexual e no bem-estar psicológico. Muitas mães evitam sair com o bebé, fazer exercício ou até rir à vontade com receio de um “acidente” — numa fase da vida em que já há tanto para gerir.
Se se reconhece nisto, a mensagem é simples: não está sozinha, não é “exagero” seu, e não tem de se resignar.
Conforto e segurança enquanto recupera
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Não substituem o acompanhamento médico nem a fisioterapia — complementam-nos, dando-lhe tranquilidade enquanto trata da causa.
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Nota: Este artigo tem caráter meramente informativo e não substitui uma consulta médica. Perante perdas de urina após o parto, recomendamos que fale com o seu médico, obstetra, enfermeiro especialista ou fisioterapeuta de saúde da mulher.
Fontes
Guerra, M. J. J. Incontinência urinária no pós-parto: epidemiologia e impacto na qualidade de vida das mulheres. Tese de doutoramento, Universidade Católica Portuguesa, 2024. http://hdl.handle.net/10400.14/47974
Avaliação da Incontinência Urinária na Gravidez e no Pós-Parto: Estudo Observacional. Acta Médica Portuguesa, agosto de 2017 (estudo no Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, 268 puérperas, 2013-2014).
Escola de Enfermagem (Porto), Universidade Católica Portuguesa — “Reabilitação Pélvica no Pós-parto: necessidade, desafio e impacto na qualidade de vida”, Católica Nursing Talks, junho de 2026 (sep.org.pt).
CUF — “Qual o papel da fisioterapia pélvica?”, cuf.pt/mais-saude/qual-o-papel-da-fisioterapia-pelvica



